Crônica
As Cartas do Gaspar
Sou Gaspar – não o mago,
o outro.
Viajei muito. Conheci lugares, culturas, pessoas que
falavam a mesma língua de modos diferentes. Cruzei mares, atravessei cidades,
habitei tempos que hoje me parecem distantes.
E, de distantes, me pergunto: foram reais?
Tenho nas mãos um maço de papéis que insiste em dizer que sim.
Alguns reconheço pela dobra, pela pressão da caneta.
Outros me chegam como chegam certas lembranças – sem rosto, mas com
importância.
Abro uma carta. A letra é minha, dizem, mas isso já
não me prova nada. Leio devagar, como quem atravessa uma ponte antiga:
“Lisboa, fim de tarde.”
Não lembro da viagem. Nem do motivo. Lembro da luz.
Uma luz dourada que descia pelas paredes como se falasse comigo sem palavras.
Dobro o papel. Abro outro:
“Luanda, calor de pedra e vento.”
Há um nome no meio do texto. Não sei quem é. Mas sinto
que já fui essa pessoa enquanto escrevia. Ou enquanto vivia. Ou enquanto
tentava dizer algo que precisava impressionar alguém.
As palavras ficaram. Curioso isso. As palavras ficaram.
Eu… não fiquei.
Há bilhetes de voo. Datas, portões, destinos. Linhas
que me levaram de um ponto a outro como se o mundo fosse contínuo, como se não
houvesse fronteiras – apenas passagens.
Atravessei oceanos... deixei pegadas...
Mas o que tudo isso deixou em mim?
Encontro um e-mail
impresso. Quem imprimiria e-mails? Eu!
Talvez eu intuísse que a nuvem é tênue e que certas coisas precisam de matéria
para resistir?
Ou talvez eu já soubesse que a memória falha. Mas a
palavra… ah, a palavra não se apaga com facilidade. Ela espera.
Há uma fotografia. Estou nela. Reconheço o gesto – o
homem não reconheço mais. Ao fundo, uma placa em português diferenciado. À
frente, um sorriso que parece saber mais do que eu sei agora. Fui essa pessoa
em algum momento.
As cartas continuam:
“Maputo.”
“Coimbra.”
“Pinheira.”
“Palhoça.”
“Lages.”
As cidades não são apenas lugares. São estados de
alguma coisa que ainda me toca, mesmo que eu não consiga nomear. Em todas, uma
tentativa: registrar. Deixar algo que não dependa da memória.
Talvez eu já soubesse. Talvez eu já soubesse que o
tempo dissolve tudo. Mas a palavra… a palavra não pede licença ao esquecimento.
Ela permanece.
Vejo um trecho sublinhado, com firmeza:
“A palavra não atravessa fronteiras – ela as ignora.”
Leio isso como se estivesse lendo alguém que fui – ou
alguém que ainda me habita. Há momentos em que sinto que não estou lembrando.
Estou sendo lembrado. Como se cada frase fosse uma mão discreta, puxando-me
pela manga para um lugar onde eu ainda existo por inteiro.
Não sei mais o que tive. Nem o que tenho. Mas sei onde
ainda estou.
Estou nestas linhas. Estive nessas linhas...
Em cada envelope, em cada dobra, em cada tentativa de
registrar o mundo antes que ele passasse.
Antes que também eu passasse? Não importa. As palavras
ficaram.
E, em algum lugar – talvez longe, talvez depois –
alguém haverá de as decifrar como eu o faço agora. E verá não o homem que fui,
mas o que registrei de mim. E isso, de algum modo, me basta.
Ouço passos.
Um homem de branco entra. Fala baixo. Há cuidado em
seus gestos, como se soubesse que certas coisas são frágeis – não os papéis,
mas o que ainda respira neles.
Ele toca meu ombro. Organiza o que está sobre a mesa.
E, com a mesma delicadeza, cuida de mim – do corpo que já não acompanha as
viagens que fez.
Há coisas desagradáveis que o tempo escreve na gente. Não
me envergonho. Mas percebo.
Ele termina, ajusta o lençol, recoloca alguns papéis
em minhas mãos, como quem entende que há territórios que não se retiram de
alguém.
Seguro uma carta. Não sei quem a escreveu.
Mas sei que ainda é minha... ou talvez seja dela.
Suspiro.
Suspiro, sentindo que enquanto houver palavra, haverá
caminhos.
Mesmo que eu já não saiba mais para onde o homem de branco me leva.

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