e a Semeadura do Espírito Por Oilson Carlos Amaral
Há segredos que permanecem escondidos à vista de todos, camuflados sob milênios de interpretações devocionais. Para entender a arquitetura do mundo ocidental, é preciso retornar ao "ponto zero": a faixa de terra entre os rios Tigre e Eufrates.
Ali, onde a civilização ensaiou seus primeiros passos, o relato bíblico é de uma literalidade desconcertante: Deus coloca o homem em uma região rica em ouro e emite uma ordem de produção clara: "Crescei e multiplicai-vos".
Nesse cenário, a humanidade não era apenas uma ideia espiritual, mas uma força de trabalho e expansão.
A "semeadura" era, na prática, a ocupação física do solo por meio da descendência biológica.
A Semente que Mudou de Natureza
Quando avançamos para o Novo Testamento, especificamente em Lucas 8:5, encontramos a famosa frase: "Saiu o semeador a semear a sua semente".
O detalhe gramatical aqui é o "X" da questão. Naquele contexto ancestral, semear a "sua própria semente" (do grego sperma) evocava a imagem de um patriarca ou líder clânico expandindo sua linhagem sanguínea e seu domínio territorial.
Era uma questão de demografia, posse e sobrevivência.
No entanto, o que hoje lemos nas igrejas passou por um filtro refinado no século IV.
O Update de Nicéia: De Sangue para Dogma
No ano de 325 d.C., o imperador Constantino percebeu que o Império Romano estava fragmentado. O sangue (a semente literal) dividia os homens em tribos e etnias inconciliáveis.
No Concílio de Nicéia, a história tomou um novo rumo.
O Velho Testamento, com suas genealogias de sangue e conquistas de terras, ganhou um "complemento" que redirecionava o foco.
A "semente" deixou de ser o sêmen que gera súditos para se tornar a "Palavra" que gera fiéis.
Essa foi a maior manobra de controle social da história:
A Vantagem: Se a semente é uma ideia (a fé), ela pode ser plantada em qualquer povo, independentemente de sua origem biológica.
O Resultado: O Império tornou-se "Universal" (Católico). O controle deixou de ser apenas físico e passou a ser mental.
O Ouro: O Lastro que Nunca Dorme
Enquanto a espiritualidade era oferecida às massas como forma de pacificação e coesão social, a elite governante nunca perdeu de vista o ouro citado desde o Gênesis.
Ao contrário do que pregam algumas interpretações excessivamente alegóricas, o ouro bíblico nunca foi "luz divina" ou "sabedoria".
Ele era metal, peso e poder.
Época | Função do Ouro | Impacto Social |
Antiguidade | Metalurgia de luxo e tributo | Fundação das primeiras Cidades-Estado. |
Niceia (Era Constantino) | Financiamento de exércitos e templos | Unificação do poder imperial sob uma nova fé. |
Dias Atuais | Lastro de moedas e refúgio econômico | Pilar de blocos como o BRICS e defesa de soberanias. |
Hoje, no século XXI, percebemos que a "Matéria Escura" da economia global continua sendo o ouro.
Ele subsidia investimentos, garante a estabilidade de moedas frente a crises sistêmicas e financia a máquina de guerra moderna, exatamente como fazia nas planícies do Eufrates.
Conclusão: O Campo ainda está sendo Semeado?
Ao analisarmos a transição do "homem do ouro" para o "homem do espírito", fica a provocação:
Teria a espiritualidade sido usada para domesticar o semeador enquanto o ouro continuava a ser colhido por quem detinha as chaves do Concílio?
A história nos mostra que, enquanto a semente de Lucas foi espiritualizada para fins de controle, o ouro permaneceu onde sempre esteve: no centro das decisões que movem exércitos e nações.
No fim das contas, a semeadura continua, mas os donos do campo raramente são aqueles que lançam as sementes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seja elegante e sensato ao postar seu comentário.